O que era a Ultracenter
A Ultracenter foi fundada em 2000 com foco em contact center e recuperação de crédito, posicionando-se no mercado brasileiro de relacionamento com clientes num momento de forte expansão do setor. A sede ficava em Barueri, no Grande ABC paulista, região que concentrou diversas operações de BPO ao longo dos anos 2000.
A empresa se apresentava como pioneira em produtos e soluções de contact center no contexto nacional, disputando espaço com operadoras maiores em nichos de cobrança e atendimento terceirizado. Seu modelo de negócio combinava infraestrutura física própria com prestação de serviços para credores de diferentes segmentos.
Serviços e estrutura operacional
A operação da Ultracenter contava com cerca de 786 posições de atendimento (PAs), dimensionadas conforme as exigências da NR17, norma que regula ergonomia em ambientes de teleatendimento. Essa escala colocava a empresa no segmento médio do mercado brasileiro de contact center, suficiente para atender contratos relevantes de cobrança e relacionamento.
Entre os serviços oferecidos estava a recuperação de crédito para credores, com suporte a envio de documentos via portal próprio. A infraestrutura física incluía cabeamento estruturado e sistemas de controle de acesso por identificação, elementos comuns em operações que lidam com dados sensíveis de inadimplentes.
O atendimento seguia um modelo multicanal integrado a processos de cobrança, exigindo sistemas de discagem preditiva, gestão de filas e registro de interações. Essa combinação era o núcleo operacional da empresa e definia sua proposta de valor junto aos contratantes.
Segmento de recuperação de crédito no contact center
A combinação de contact center com operações de cobrança é historicamente comum no Brasil. Bancos, financeiras, varejistas e empresas de utilities são os principais contratantes desse tipo de serviço, terceirizando a régua de cobrança para reduzir custo interno e aumentar a capilaridade de contato.
Empresas que operam nesse segmento estão sujeitas a múltiplas camadas regulatórias: as normas do Banco Central para operações relacionadas a instituições financeiras, o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e a LGPD, que impõe exigências sobre coleta, uso e retenção de dados pessoais de devedores.
O modelo exige gestão intensiva de capital humano. A rotatividade de agentes em operações de cobrança tende a ser elevada, e o custo de treinamento e conformidade é constante. Do lado tecnológico, discadores preditivos, CRM integrado e gravação de chamadas são requisitos básicos de qualquer operação competitiva.
As métricas centrais do setor incluem taxa de recuperação sobre carteira trabalhada, custo por contato efetivo, índice de conformidade regulatória e satisfação do credor contratante. Equilibrar eficiência operacional com aderência às normas é o principal desafio estrutural do segmento.
Situação jurídica e encerramento das atividades
Registros públicos indicam que a Ultracenter consta como falida no CNPJ 03.920.847/0001-82. O processo falimentar foi comunicado formalmente a credores e partes interessadas, seguindo o rito previsto na Lei de Falências (Lei 11.101/2005).
O volume de litígios é expressivo: mais de 1.900 processos judiciais foram identificados no Jusbrasil, com concentração no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (TRT2), o que aponta passivo trabalhista como fator central na crise da empresa. Ações de ex-funcionários envolvendo verbas rescisórias, horas extras e condições de trabalho são recorrentes em operações de contact center com esse porte.
O caso ilustra um padrão observado em outras empresas do setor de BPO de cobrança: crescimento acelerado baseado em contratos de curto prazo, estrutura de custo rígida e exposição a passivos trabalhistas que se acumulam ao longo de anos antes de se tornarem insustentáveis.
Como avaliar fornecedores de contact center antes de contratar
O encerramento de operações como a da Ultracenter deixa contratantes em situação delicada: perda de continuidade operacional, risco de exposição de dados de clientes e potencial envolvimento em litígios trabalhistas do fornecedor. Algumas práticas reduzem esse risco.
Verifique a saúde financeira do fornecedor
Consulte a certidão de regularidade fiscal (CNPJ na Receita Federal), certidões negativas de débitos trabalhistas no TST e o histórico de protestos em serviços como Serasa ou Boa Vista. Um fornecedor com mais de mil processos ativos no TRT é um sinal de alerta independentemente do preço ofertado.
Avalie compliance com LGPD e histórico regulatório
Operações de cobrança processam dados pessoais sensíveis em escala. Verifique se o fornecedor possui política de privacidade atualizada, encarregado de dados (DPO) nomeado e contratos de processamento de dados (DPA) prontos para assinatura. Histórico de autuações pelo Procon ou ANPD também deve ser consultado.
Inclua cláusulas de continuidade no contrato
Estabeleça obrigações contratuais de transferência de dados, portabilidade de gravações e SLA mínimo de transição em caso de encerramento das atividades. Defina também quem responde pelos passivos trabalhistas gerados durante a execução do contrato: esse ponto costuma ser negligenciado e gera solidariedade indesejada ao contratante.
Diversifique sua base de fornecedores
Concentrar 100% da operação de cobrança ou atendimento em um único parceiro cria risco sistêmico. Manter ao menos dois ou três fornecedores ativos simultaneamente, mesmo que em volumes diferentes, garante capacidade de absorção em caso de insolvência ou descontinuidade de um deles.





